A DIMENSÃO DOS ELFOS (Capítulo XIV)

Derlo passou o dia todo procurando Eliel e, quando anoiteceu, ele retornou ao castelo exausto.

Lorena perguntou:

– Está satisfeito? Se tivesse confiado em mim, eu teria lhe contado como tudo aconteceu.

Exalando preocupação, Derlo afirmou:

– Eu preciso ir. Mas ainda tenho que pensar no que direi a Cibele.

Lorena sugeriu:

– Acompanhe-me ao salão de refeições para que eu possa servir-lhe o jantar. Depois que você se alimentar, poderá recolher-se em um dos quartos. Amanhã, se desejar, poderá recomeçar a busca.

Derlo declarou:

– Eliel não está no Coração das Fontes da Juventude. Sou obrigado a reconhecer que você dizia a verdade. Por que não me conta o que houve enquanto jantamos?…

Durante o jantar, Lorena confidenciou:

– Depois que Cibele o libertou da ânfora, e você a conduziu através do portal no espelho; Tadeu retornou da árvore de Eliel e culpou-me pelo desaparecimento de Cibele. A afeição que ele aparentava sentir por mim desapareceu como por encanto. Eu pude sentir a frieza da sua revolta e do seu desprezo; e o arrependimento por eu ter virado as costas para Cibele fez morada em meu coração. Desestabilizei-me emocionalmente: entreguei-me às lágrimas e ao desespero. A partida de Tadeu e a certeza de que ele nunca mais voltaria fecharam o meu coração e, consequentemente, iniciaram uma tempestade fria e avassaladora. Pedi ajuda a Cibele em sonho, e ela atendeu ao meu apelo. Entretanto, o frio intenso que se instalara no castelo só permitiu que ela me despertasse do desmaio.

Lorena fez uma breve pausa antes de prosseguir:

– Ela saiu para buscar ajuda e, nesse meio tempo, Eliel apareceu trazido pelo anel que eu havia ofertado a Tadeu. Embora o Coração das Fontes da Juventude tivesse aceitado Eliel como seu Guardião, o coração dele repelia a ideia. Eliel desesperou-se e, como o anel não obedecia ao seu comando, ele começou a buscar um portal na floresta. À noite, quando ele retornava exausto, ficava no salão dos espelhos contemplando o reflexo de Cibele. As incursões na floresta durante o dia, e as noites em claro diante do espelho mantinham a chama da esperança acesa em seu coração.

Ela interrompeu a narração novamente para contemplar o olhar atencioso de Derlo. Encorajada pelo seu silêncio, ela finalizou:

– Após manter essa rotina por quase um mês, houve um dia em que o dragão o deixou na praia, bem próximo à floresta, e ele nunca mais retornou. Era Eliel quem conseguia acessar a imagem de Cibele no espelho e não eu. Quando ele se foi, eu imaginei que ele tivesse conseguido localizar o portal que tanto procurava para voltar para Cibele. No momento em que você chegou, eu estava no salão dos espelhos recebendo a notícia do desaparecimento do cajado. Imagine o susto que levei ao vê-lo atravessar o portal segurando o cajado… Eu nunca poderia supor que você o tivesse roubado apenas para ajudar Cibele pela segunda vez. Ela realmente conseguiu despertar a bondade adormecida em seu coração.

Derlo confidenciou:

– Além de Afrânio, ela foi a única pessoa que acreditou em mim. Eu me senti bem comigo mesmo quando consegui ajudá-la, e essa sensação perdura até hoje. Cibele trouxe calor e mobilidade para o meu coração enrijecido pelo egoísmo e pela indiferença.

Lorena comentou:

– Diz a lenda que há muitos portais na floresta, e que várias dimensões podem ser acessadas através deles. Eliel ainda usava o anel porque não conseguiu retirá-lo; ele tocava cada pedra e cada árvore na esperança de que um portal se revelasse. Era o coração que o guiava nessa busca; ele pode ter sido atraído para um portal que o tenha transportado à sua própria dimensão. Embora eu não possa afirmar que ele esteja na dimensão dos elfos, eu não vejo outra explicação para o seu desaparecimento.

Derlo perguntou:

– Como podemos trazê-lo de volta?

Lorena murmurou:

– Eu não sei. Nunca me deparei com essa situação antes.

Derlo calou-se pensativo. E Lorena sorriu ao comentar:

– Eu nunca imaginei que um dia pudéssemos sentar e conversar frente a frente. Quando você invadiu o Coração das Fontes assumindo a aparência de um mago, eu não tive a oportunidade de ver o seu rosto verdadeiro. Depois, no momento em que a fúria do meu descontrole desencadeou o vendaval que o varreu para a ânfora, tudo aconteceu depressa demais, e eu também não consegui vê-lo. Agora percebo o quanto estava enganada a seu respeito. Você não era um monstro; era apenas um gênio perdido em uma escala de valores mal elaborada e caótica. Eliel contou-me que você fez uma cópia das memórias de Cibele com a finalidade de ajudá-la. Esse seu gesto altruísta sensibilizou o seu coração e o motivou a reestruturar sua escala de valores.

Derlo disse:

– Não se apresse em afirmar isso porque, perante o Conselho dos Gênios, ainda sou considerado um ladrão irrecuperável. Lembre-se de que estou de posse do cajado do Mago Benquisto. Esse roubo certamente não ficará impune. Quer saber de uma coisa?!… Eu não me importo de ficar preso no conforto daquela ânfora. É verdade!… Não ria!… Embora ela possa parecer pequena por fora, é espaçosa e confortável por dentro. Mas como eu ia dizendo, se eu não conseguir unir Eliel a Cibele, a minha liberdade terá sido em vão, porque para mim ela não serve para nada. Livre, eu me sinto tão vazio quanto me sentia no interior daquela ânfora. A minha única motivação é devolver, ao garotinho, o seu pai.

Confusa, Lorena perguntou:

– A que garotinho se refere?… Eu pensei que o seu único objetivo fosse ajudar Cibele. Conte-me sobre esse garoto.

Derlo exclamou:

– Você é péssima em adivinhação! Eu praticamente já lhe disse: Cibele espera um bebê; e nós, os tios da criança, desejamos que seja um menino.

Desconfiada, Lorena perguntou:

– Você não está inventado essa história para sensibilizar-me e convencer-me a ajudá-lo em sua busca por Eliel, está?…

Ele respondeu:

– De forma alguma. Sabe o que é mais engraçado?!… Eu não sei se Eliel ficaria feliz em me ver porque eu sou uma lembrança desagradável. Para ajudar Afrânio a desmascarar-me, ele fingiu estar interessado por mim e me beijou. Naturalmente, na época, eu assumia a aparência de uma jovem sedutora e atraente.

Derlo parecia divertir-se com a revelação. Mas depois o sorriso apagou-se quando ele, revestindo-se de seriedade, confidenciou:

– Esse é um passado que eu deixaria para trás se pudesse. Eu só fiz bobagem durante a minha vida toda!… Mesmo quando eu tentei fazer o bem, ainda tive que combinar o meu senso de humor com a túnica preta de Cibele para fugir às investidas de Florêncio. Tive sorte de ter conseguido escapar daquela dimensão antes que o romance se tornasse mais sério.

Derlo calou-se para contemplar, extasiado, o sorriso de Lorena. Encabulada, ela perguntou:

– Por que está me olhando desse modo?

Com o olhar iluminado pelo sorriso de Lorena, ele respondeu:

– Porque eu estou começando a me apaixonar pela primeira vez. É melhor eu me recolher para amanhã recomeçar a busca.

FIM DO 14º CAPÍTULO DA PARTE 3 (A DIMENSÃO DOS ELFOS) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.
Sisi Marques
17/11/2013

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO DA PARTE 3 (A DIMENSÃO DOS ELFOS) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.

Grata,
Sisi Marques

Sobre Sisi Marques

Sou apaixonada pelos personagens e pelas histórias que povoam a minha imaginação. Amo escrever, porque é através da escrita que consigo registrar os momentos maravilhosos que essas realidades mágicas me proporcionam.
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