FLORÊNCIO (Capítulo XVI)

Quando Cibele terminou a refeição, nós nos dirigimos para a sala. Tadeu sentou no meio do sofá, e Cibele sentou-se ao lado dele. Para evitar um mergulho acidental nos olhos de Cibele, Eliel preferiu também sentar-se ao lado de Tadeu. Afrânio e Anabel sentaram no sofá de dois lugares. Crisélia e eu ocupamos as poltronas. Estávamos todos com a atenção voltada para Cibele no instante em que ela iniciou sua narrativa:

– Ontem parece ter sido o dia dos sermões. Primeiro foi Tadeu, e depois Lorena… Já desvencilhada da influência de Florêncio pelos sermões que ouvira anteriormente, eu contemplava o rosto de Eliel no salão dos espelhos quando me assustei ao ouvir a voz de Florêncio. Virei para trás e vi o seu vulto no espelho. Ele ordenou que eu libertasse Derlo, para que ele localizasse a chave e a esfera e pudesse conduzir-me através do portal no espelho. Eu precisei mentir e menti deliberadamente para conseguir enganá-lo. Eu disse que me uniria a ele, se ele aceitasse as minhas condições. Perguntei com que tipo de mulher ele tencionava casar-se: com alguém que fosse o reflexo dele mesmo ou alguém que tivesse desejos e vontade própria. Para que ele abandonasse a sua influência sobre mim, eu disse que só o aceitaria se eu pudesse continuar a ser eu mesma. E, para conquistar-lhe a confiança, mencionei que a chave e a esfera estavam no fundo da piscina. Ele se tornou amável e afirmou que tudo seria como eu desejasse.

Curiosa, Anabel não conseguiu vencer a tentação de perguntar:

– Como a chave e a esfera foram parar no fundo da piscina?!… Então, foi por esse motivo que Tadeu chegou aqui descalço e todo molhado?!…

Cibele, surpresa e enternecida com a revelação de Anabel, enviou a Tadeu um olhar carinhoso antes de murmurar:

– Perdoe-me. Eu não imaginei que…

Ele não a deixou terminar; enquanto colocava o braço ao redor de seus ombros, interrompeu-a dizendo:

– Está tudo bem. Eu fiquei desesperado quando voltei da casa de Anabel e não a encontrei. Lorena revelou-me que Derlo tinha sido libertado, e um temor imenso apoderou-se do meu coração. Discuti com Lorena e responsabilizei-a pelo seu desaparecimento, e ela, sentindo-se culpada, ajudou-me a procurá-la. Quando eu tive a certeza de que você havia partido, fui ao salão de banho, tirei apenas os sapatos e atirei-me na piscina para verificar se a chave e a esfera ainda estavam lá. Lorena, compadecida do meu desespero, estendeu a mão e usou a sua magia para atraí-las; mas tudo foi em vão. Saí da piscina e, sem pensar em mais nada, girei o anel e fui direito para a casa de Anabel.

Foi a vez de Anabel exclamar:

– Que fiasco! Eu tive vontade de matar Tadeu quando ele apareceu do nada na frente de Clara! Afrânio caprichou tanto naquele jantar para chegar Tadeu e estragar tudo!

Começando a rir, Anabel acrescentou:

– Você deveria ter visto a expressão de Clara quando ela perguntou a Ermínio se ele também era um bruxo!…Imagine a reação dela quando ele negou ser um bruxo e afirmou ser um gênio!… Clara ficou tão traumatizada que recusou o oferecimento de Ermínio e preferiu chamar um táxi para levá-la para casa. Foi muito engraçado!…

Afrânio repreendeu-a:

– Não teve a menor graça. Ela descobriu o nosso segredo, e não sabemos o que poderá acontecer.

Tadeu disse:

– Tive a oportunidade de conversar com Clara hoje cedo na praia, e ela prometeu guardar segredo.

Afrânio exclamou:

– Menos mal! Mas agora eu quero ouvir a parte em que Cibele se encontra com o meu irmão.

Tadeu já havia retirado o braço dos ombros de Cibele quando ela prosseguiu:

– Eu já estou quase chegando nessa parte. Eu disse a Florêncio que seguiria suas orientações se eu pudesse permanecer no castelo da minha mãe, em vez de ir para os braços dele depois que Derlo me conduzisse através do portal no espelho. Eu entregaria a ela a chave e a esfera e ficaria aguardando sua visita. Confidenciei a ele o meu falso desejo de obter o consentimento da minha mãe, uma vez que me uni a Eliel sem o consentimento dela.

Tadeu exclamou:

– Agiu muito mal! Por que se diverte tanto mentindo?!… Por que fez com que ele acreditasse que pretendia unir-se a ele?! Você entrou num jogo muito perigoso e poderia ter ficado presa em sua rede de mentiras!

Contemplando o rosto de Tadeu, Cibele rebateu sem alterar o tom de voz:

– É fácil para você se zangar! Se soubesse a aflição pela qual passei!… Eu precisava ter a certeza de que ele cumpriria sua promessa de cessar o controle sobre a minha mente, para que eu pudesse executar o meu plano. Ele já estava indo embora quando eu o chamei de volta para que ele revelasse a localização da ânfora do gênio que eu precisava libertar. Ele pediu que eu olhasse para o espelho na parede oposta: havia uma planta do castelo, e ele disse que a ânfora que aprisionava o gênio estava representada por um ponto luminoso, localizado no 2º andar abaixo daquele. Ele estava mesmo seguro de que eu o aceitaria porque a sua voz estava suave, e ele afirmou que a sua influência sobre mim se estenderia apenas até o momento em que os meus olhos tocassem a ânfora. Eu não perdi tempo. Deixei o salão dos espelhos, fui ao salão de banho para recuperar a chave e a esfera, e trilhei o caminho para a sala onde estava a ânfora. Ao contemplar o magnífico e sombrio objeto, um pensamento gélido invadiu o meu coração. Eu menti para enganar Florêncio e me perguntava se ele também não mentira quando prometeu libertar a minha mente de sua vigilância. Para ter a certeza de que ele cumprira sua promessa, imaginei o rosto de Eliel e o beijei em pensamento.

Naquele momento, Tadeu sentiu o coração parar de bater. Perguntava-se o que fazia ali no meio dos dois. Precisava afastar-se, mas, ao mesmo tempo, temia atrair as atenções para si e magoar Cibele. Teve uma ideia. Olhando nos olhos de Cibele com ternura, sugeriu:

– Por que não descansa um pouco?… Está na hora de fazermos uma pausa. Quer que eu lhe apanhe um copo d’água?

Ela respondeu:

– Sim, obrigada. Quando você voltar, continuaremos.

Tadeu levantou-se, e Eliel, aproveitando-se do espaço que ganhara no sofá, estendeu o braço no encosto sem imaginar que o seu gesto atrairia a atenção de Cibele. Ela, por sua vez, não conseguiu resistir e endereçou-lhe um olhar discreto e apaixonado. Imaginava como seria maravilhoso aproximar-se e deixar-se envolver naquele abraço. Eliel, embora tivesse retribuído o olhar de Cibele, não ousou aproximar-se. Tadeu voltou, entregou o copo de água a Cibele e, após sentar-se no braço do sofá ao lado de Eliel, sugeriu:

– Continue, Cibele. Estamos esperando.

Ela hesitou. Não conseguia ordenar os pensamentos. O seu coração falava mais alto e pedia-lhe que se aproximasse de Eliel. Ela corou quando ouviu Afrânio dizer:

– Tadeu sente-se novamente entre os dois para que eu consiga ter notícias do meu irmão. Cibele se distrai e perde o fio da meada quando olha para Eliel.

Foi a vez de Crisélia sugerir:

– Eu tenho uma ideia melhor: por que não vamos à cozinha preparar um suco de frutas?!…

FIM DO 16º CAPÍTULO DA PARTE 2 (FLORÊNCIO) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.
Sisi Marques
31/10/2013

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO DA PARTE 2 (FLORÊNCIO) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.

Grata,
Sisi Marques

Que os seus sonhos se realizem!

Sobre Sisi Marques

Sou apaixonada pelos personagens e pelas histórias que povoam a minha imaginação. Amo escrever, porque é através da escrita que consigo registrar os momentos maravilhosos que essas realidades mágicas me proporcionam.
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