FLORÊNCIO (Capítulo XII)

Precisamos voltar à árvore de Eliel para retomarmos o momento em que Tadeu soma o seu próprio sofrimento ao peso do silêncio de Eliel, e as lágrimas transbordam de seus olhos. A angústia em seu coração é quase insuportável, e ele quebra o silêncio para dizer:

– Foi muita pretensão minha acreditar que eu poderia protegê-la! Eu não deveria tê-la conduzido ao Coração das Fontes, e Lorena não deveria ter se recusado a fazer-lhe companhia. Quando eu saí para dar a notícia do desaparecimento de Cibele, Lorena estava desfeita em lágrimas, e eu não tive coragem de dizer a ela que não pretendia mais voltar. Eu me sinto péssimo! Esta é a primeira vez que me arrependo de ter ingerido a água da Fonte da Juventude. Para que prolongar a vida se o coração deixou de bater?!

Eliel, com os olhos úmidos e a voz recoberta de tristeza, disse:

– Você ainda teve a oportunidade de protegê-la e sente, em seus lábios e em seu coração, o sabor dos beijos de Cibele. Eu sinto apenas o gosto amargo do abandono. Eu fui tolo e egoísta ao subestimar o espaço que você ocupava no coração de Cibele.

Procurando conter a exaltação, Tadeu exclamou:

– Está sendo injusto! Esqueceu-se da influência que Florêncio estava exercendo sobre a mente e o coração de Cibele?!… Ela só o afastou porque estava exposta às sugestões dele. Não pode responsabilizá-la por aquele desamor temporário.

Sem alterar o tom de voz, Eliel disse:

– Concordo que o desamor de Cibele em relação a mim tenha sido provocado pelo ciúme de Florêncio. Mas não foi Florêncio quem intensificou o amor de Cibele por você.

Tadeu, balançando a cabeça para os lados em sinal de desaprovação, exclamou:

– Não é possível!… Não acredito que, depois de tudo o que aconteceu, você só consiga sentir pena de si mesmo e acariciar o seu ciúme!… Cibele, movida pela ação nefasta de Florêncio, libertou Derlo. Aquele gênio sem escrúpulos deve tê-la obrigado a retornar àquela dimensão. O desaparecimento da esfera e da chave elimina qualquer possibilidade de tentarmos resgatá-la. Não é apenas o nosso mundo de amor por Cibele que está desabando!… Deveríamos estar preocupados com a sua segurança e com o futuro tenebroso que a aguarda! Eu me recuso a ficar aqui sendo alvo do seu ciúme!

Eliel, com a mesma inflexão de voz que usara anteriormente, confessou:

– Maior do que o meu sofrimento e o meu desespero em relação à desventura de Cibele e à nossa própria desventura é o arrependimento de ter impedido que ela fosse feliz ao seu lado. Eu ainda tenho a esperança de que Cibele volte. Ela é inteligente e, mais do que tudo, está fortalecida pelo seu amor. Quando Cibele retornar, ela terá a oportunidade de refazer a sua escolha e a sua vida. Agora, por favor, Tadeu, vá embora porque eu preciso ficar sozinho.

Tadeu estava igualmente desolado e não encontrou o que dizer. Girou o anel e dirigiu-se ao porão da casa de Anabel. Para extravazar sua revolta, ele puxou o tapete e o arremessou de encontro à parede. Depois sentou no chão e deu vazão às lágrimas.

Tadeu fitava o piso no local exato onde repousava o portal adormecido. Ele repassava, em sua mente, a cena que presenciou no dia em que Cibele tencionava partir: Ela acionara o portal virando a chave na abertura do alçapão invisível e começou a descer a escada. Ele implorava para que ela voltasse, e ela finalmente acabou desistindo de partir.

As lágrimas ainda corriam livres pelo rosto de Tadeu quando, inesperadamente, ele vislumbrou algo que deixou sua respiração suspensa: o contorno do alçapão delineou-se no assoalho, e a tampa ergueu-se revelando o rosto de Cibele. Encantado ao vê-la, Tadeu, sem dizer nada, apressou-se em ajudá-la a sair. Após contemplar o rosto de Cibele com o coração pulsando de felicidade, ele estendeu a mão para que ela lhe entregasse a chave. Tadeu agachou e colocou a chave no orifício localizado no centro do alçapão. O alçapão desapareceu, e o piso retomou a forma anterior.

Tadeu levantou-se para contemplar o rosto de Cibele, e a emoção roubava-lhe as palavras. Cibele também permanecia extasiada diante daquele olhar que tanto amava. Eles estavam tão envolvidos na magia do reencontro que não perceberam o súbito aparecimento de Eliel. As palavras eram desnecessárias. O que contava era o pulsar intenso daqueles dois corações. Eles se abraçaram, e Eliel abaixou os olhos para não ver o beijo que trocaram. Quando o beijo terminou, ainda aconchegada ao abraço de Tadeu, Cibele exclamou sorrindo:

– Eu preciso ver Eliel!… Estou morrendo de saudades!…

Cibele surpreendeu-se ao ouvi-lo dizer:

– Eu estou aqui.

Cibele desvencilhou-se do abraço de Tadeu e virou-se para contemplar o rosto de Eliel. Ela procurou a magia do amor em seus olhos, mas não a encontrou. Confusa, perguntou:

– Não recebo um abraço?!…

Eliel aproximou-se para abraçá-la. Foi um abraço rápido e, aparentemente, sem emoção por parte dele. Cibele teve apenas o tempo de dar-lhe um breve beijo no rosto. Decepcionada, ela enviou um olhar a Tadeu antes de exclamar:

– Sinto que vou desmoronar de exaustão! Preciso descansar urgentemente! Amanhã, prometo contar tudo.

Depois, endereçando um olhar carinhoso a Eliel, perguntou:

– Podemos ir?

Eliel, revestindo a voz de suavidade, disse:

– Você não precisa mais despedir-se de Tadeu. Eu a liberto do nosso compromisso e desejo que seja feliz ao lado dele.

As palavras de Eliel navegavam à deriva no coração e na mente de Cibele. Ela fitava o rosto dele, buscando uma explicação para aquela atitude inesperada. Cansada daquele jogo absurdo de adivinhação, ela acabou perguntando:

– Está zangado porque presenciou o nosso reencontro?…

Ele disse apenas:

– Seja bem-vinda. Boa noite.

Eliel desapareceu tão silenciosamente quanto chegara.

Com uma expressão indefinível no rosto, Cibele murmurou:

– Eu estou cansada!… Não consigo mais raciocinar!…

Abraçando-a ternamente, Tadeu aconselhou:

– Acalme-se; logo tudo ficará bem. Eliel estava completamente fora de si quando lhe ofereceu a oportunidade de ser feliz ao meu lado.

Cibele, com lágrimas nos olhos, exclamou:

– É desse modo que ele espera que eu seja feliz?!… Ele transformou o seu coração em uma fortaleza que eu não consigo atravessar. Como posso viver sem o amor de Eliel?! Foi o beijo, não foi?! Ele ficou zangado e não quis admitir. Para vingar-se, ele me virou as costas!… O ciúme de Eliel me enlouquece! Eu não deveria estar chorando.

Tadeu sugeriu:

– Vá para a árvore de Crisélia e descanse. Todos nós estamos cansados e confusos. Amanhã conversaremos durante o café.

Com o olhar preso ao rosto de Tadeu, Cibele disse:

– Dê lembranças minhas a Lorena e desculpe-se com ela sobre o nosso encontro no salão de banho. Precisamos começar a refrear as nossas emoções e os nossos sentimentos para não magoarmos a quem amamos. Concorda?

Tadeu, com o coração em chamas, respondeu:

– Sim. Mas somente depois deste último beijo.

Tadeu não deu a Cibele tempo de pensar ou reagir. Beijou-a. Beijou-a com todo o seu amor pela última vez.

FIM DO 12º CAPÍTULO DA PARTE 2 (FLORÊNCIO) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.
Sisi Marques
26/10/2013

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO DA PARTE 2 (FLORÊNCIO) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.

Grata,
Sisi Marques

Que os seus sonhos se realizem!

Sobre Sisi Marques

Sou apaixonada pelos personagens e pelas histórias que povoam a minha imaginação. Amo escrever, porque é através da escrita que consigo registrar os momentos maravilhosos que essas realidades mágicas me proporcionam.
Esta entrada foi publicada em FLORÊNCIO (LIVRO 2 - PARTE 2). Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>