FLORÊNCIO (Capítulo XI)

Se voltássemos no tempo, no instante em que Florêncio assustou Cibele com sua repentina aparição no espelho, poderíamos ouvi-lo dizer:

– Você não conseguirá voltar sozinha. Liberte o gênio que está preso na ânfora e traga-o aqui para que eu possa convencê-lo a ajudá-la a localizar a chave e a esfera.

Cibele murmurou:

– Eu não sei onde está a ânfora e, mesmo que eu soubesse, não teria coragem de libertar aquele gênio terrível. Além disso, eu não preciso dele para localizar a chave e a esfera, porque sei onde estão: no fundo da piscina que ajudei Lorena a construir para Tadeu.

Florêncio comentou satisfeito:

– O meu empenho está sendo recompensado. Use sua magia para reaver a chave e a esfera. Quanto ao gênio, terá que libertá-lo porque, do contrário, não conseguirá atravessar este espelho. Eu menti quando disse que você precisava da chave para voltar. A magia do gênio poderá ajudá-la a atravessar este espelho, que a minha própria magia transformou em um portal temporário para que você pudesse atravessá-lo.

Cibele perguntou desconfiada:

– Se eu não preciso da chave, porque você insiste para que eu a leve comigo?

Ele disse:

– A resposta é óbvia: sem a chave e a esfera, o empregadinho da sua mãe e o elfo não conseguirão entrar na nossa dimensão para buscá-la.

Com a voz entrecortada, Cibele aventurou-se a dizer:

– Eu estou disposta a aceitar o seu amor com uma condição.

Cibele pôde contemplar o sorriso estampado no rosto de Florêncio quando ele disse:

– Estamos começando a nos entender. O que deseja?

Ela comentou:

– Você ama o que eu sou e não o que estou prestes a me tornar. Se continuar me vigiando, se continuar manipulando a minha vontade, em breve, eu deixarei de ser eu mesma e, na minha mente, haverá apenas os seus pensamentos. Que tipo de mulher você deseja ter ao seu lado: uma que seja o reflexo de você mesmo ou alguém que possa sentir amor por você? Você mesmo disse que aperfeiçoou sua magia para agradar-me. Não foi para satisfazer os seus próprios desejos que você se dedicou tanto e sim para satisfazer os meus. Apenas se você me aceitar como eu sou, eu poderei amá-lo pelo que você é. Se você quer se unir a mim, terá que ser do meu modo: pare de me vigiar e permita que eu volte para o castelo da minha mãe em vez de ir ao seu encontro. Eu devolverei a esfera e a chave à minha mãe, porque esses dois objetos pertencem a ela por direito. A partir daí, eu ficarei aguardando ansiosamente que você peça a ela permissão para se casar comigo. Eu não me uni a Tadeu porque a minha mãe jamais permitiria e, infelizmente, acabei me unindo a Eliel sem a permissão dela. A minha mãe não negaria o seu consentimento em relação a você.

Esquadrinhando o rosto de Cibele, Florêncio declarou:

– Será como você deseja: recupere a chave e a esfera, liberte o gênio, atravesse o portal no espelho, vá para o castelo de sua mãe, entregue a ela a chave e a esfera e aguarde a minha visita. A partir deste momento, você estará por sua própria conta, e a minha magia só permanecerá nesta sala para manter o portal aberto até que você consiga atravessá-lo na companhia do gênio. Até breve.

Cibele chamou-o de volta:

– Por favor, espere! Não vá embora antes de orientar-me em relação ao gênio. Depois que ele me ajudar a atravessar o portal, poderei libertá-lo?

Florêncio disse:

– Eu estava pensando em escravizá-lo, mas você poderá libertá-lo se desejar. Mais alguma pergunta?

Cibele perguntou:

– Eu terei que beijá-lo?…

Procurando camuflar o seu ressentimento, Florêncio exclamou:

– Você me decepciona! Pensei que estivesse começando a se interessar por mim e, agora, pergunta se terá que me beijar!…

Cibele explicou:

– Eu não soube me expressar adequadamente. Eu sempre me senti atraída por você, e seria um prazer beijá-lo. Quando eu fiz a pergunta, estava me referindo ao gênio. Terei que beijá-lo e permitir que ele me abrace durante a travessia?

Florêncio exclamou:

– Não, Cibele! Que ideia mais repugnante! Ele apenas segurará em sua mão para puxá-la para o interior do portal. Posso ir agora, ou você deseja permanecer um pouco mais em minha companhia?

Cibele sorriu antes de dizer:

– Eu confesso que a sua suavidade e o seu desejo em agradar-me tornaram a sua companhia prazerosa. Mas não podemos estender a nossa conversa porque Tadeu ou Lorena poderiam aparecer e estragar os nossos planos. Você se esqueceu, querido, de me dizer onde está a ânfora.

Esbanjando satisfação pelo modo carinhoso que Cibele se dirigira a ele, Florêncio perguntou:

– Você permitiria que eu influenciasse a sua mente mais uma vez? Eu prometo que será a última.

Ela respondeu sorrindo:

– Sim. O que eu devo fazer?

Ele explicou:

– Vire-se e contemple a planta do castelo à sua frente. Está vendo o ponto luminoso dois andares abaixo deste?… É exatamente nesse lugar que a ânfora se encontra. Você não terá dificuldade em encontrar o caminho porque eu a estarei guiando. Quando você localizar a ânfora, o efeito desta última incursão minha em sua mente cessará. Vire-se, novamente, para que eu possa memorizar o seu rosto e desenhá-lo em meu coração. Não me decepcione. Esta é a primeira vez que confio em alguém. Agora, vá. Até breve, querida.

Antes de ver o vulto de Florêncio desaparecer no espelho, Cibele murmurou:

– Até breve.

Cibele deixou o salão dos espelhos e caminhou em direção ao salão de banho. Estendeu as mãos na direção da piscina, como vira Eliel fazer em relação à agenda e aos livros de Clara. No momento seguinte, a chave e a esfera estavam em seu poder. Ela deixou o salão e permitiu que o pensamento de Florêncio a guiasse até finalmente vislumbrar a prisão dourada de Derlo. Para testar se a influência de Florêncio havia sido interrompida, ela pensou em Eliel e desejou de todo o coração estar ao lado dele. Cibele conseguiu desenhar o seu rosto e beijá-lo em sua imaginação. Sentiu-se livre e pronta para agir.

Aproximando-se da ânfora com o coração temeroso, ela perguntou em voz alta:

– Derlo, consegue me ouvir?…

Uma voz quase inaudível, vinda do interior da ânfora, respondeu:

– Sim. Por favor, liberte-me, e eu realizarei os seus desejos.

Cibele disse:

– O meu único desejo é poder contar com a sua ajuda. Se eu o libertar, você promete não fugir e me ajudar?…

Derlo respondeu:

– Tem a minha palavra. Retire o lacre e afaste-se.

Cibele rompeu o lacre da ânfora com sua magia e afastou-se para não ser envolvida por uma fumaça de coloração amarronzada. O pavor, que a princípio invadiu sua alma e a fez tremer, se desfez quando ela pôde contemplar o rosto do gênio. Exclamou:

– Como alguém tão belo pode ser tão mau?! Eu imaginava que fosse libertar um monstro e, no entanto, você consegue ser ainda mais bonito do que Afrânio!

Derlo, com a declarada intenção de atemorizá-la, aconselhou:

– Não se deixe enganar pelas aparências. Um rosto atraente não equivale a um coração generoso. Os seus olhos só podem contemplar o meu exterior. Você reparou na cor da fumaça que se desprendeu da ânfora?… Aquela é a cor da minha aura que em nada se assemelha à sua. Quem é você?!… Não me diga que é uma fada!… Odeio fadas!… São convencidas, fúteis e avoadas!

Cibele deixou escapar um sorriso antes dizer:

– O meu nome é Cibele, e eu sou uma bruxa.

Esquadrinhando o rosto de Cibele, Derlo disse:

– Você não parece uma bruxa. Se fosse uma bruxa, o seu orgulho não permitiria que pedisse ajuda a um gênio. Você não deve ter poderes porque, se os tivesse, não estaria tão fragilizada e não se submeteria a essa humilhação. O que espera que eu faça?

Cibele revelou:

– Eu estou sendo perseguida por Florêncio, um bruxo que deseja atrair-me de volta à minha dimensão. Ele espera que você me conduza através do portal que ele ativou no salão dos espelhos.

Derlo, orgulhoso, afirmou:

– Fui eu que abri aquele portal com a ajuda do cajado e o desativei em seguida para evitar que rastreassem a magia do cajado e descobrissem a minha localização. Esse seu namorado deve ser um bruxo muito poderoso; além de rastrear os vestígios da magia do cajado, ele ainda conseguiu reacendê-la, permitindo assim a reabertura do portal. Deixe-me ver se entendi… Estou me envolvendo em uma briga familiar: vocês se desentenderam, e você o deixou. Ele quer que você volte, e você se recusa porque acredita que ele mereça uma lição. Onde eu entro nessa história?

Cibele, procurando refrear seu desespero e sua impaciência, explicou:

– Não é nada disso! Eu sou esposa de Eliel, o elfo que o beijou na época em que você se fez passar por uma jovem de nome Sílvia.

Derlo perguntou:

– E por que eu deveria ajudar a esposa do elfo que ajudou o meu irmão a me desmascarar e a aprisionar-me?!… Espere aí! Você está mentindo!… A esposa do elfo chamava-se Anabel e não Cibele. Eu percebo o que está tentando fazer: capturar-me para que o seu namorado bruxo possa escravizar-me. Sou eu o único ser indefeso aqui, porque a essa altura você e o seu namorado já devem saber que eu não tenho poderes. Faça o que veio fazer. A vida nessa ânfora já estava ficando aborrecida mesmo! Onde pretende aprisionar-me?

O desespero e o cansaço permeavam o olhar de Cibele quando ela declarou:

– Você está livre. Eu assumirei toda e qualquer responsabilidade pela sua soltura perante o Conselho dos Gênios. Eu não lhe peço que acredite em mim, apenas conduza-me através do portal, como se estivesse me levando de volta para a casa da minha mãe na dimensão das bruxas. Depois distraia Florêncio até eu conseguir voltar para Eliel.

Aproximando-se de Cibele, Derlo ordenou:

– Feche os olhos.

Cibele, impulsionada pelo temor e pelo receio, afastou-se. Ele disse:

– Se deseja que eu a ajude, terá que aprender a confiar em mim. Eu nunca me senti inclinado a ajudar ninguém. Eu causei tanto mal e tanta confusão que até Afrânio se cansou da minha falta de caráter e me abandonou. A sua aflição, no entanto, trouxe-me de volta à liberdade que eu nunca soube valorizar. E a ingenuidade em seu coração me convida a ajudá-la e a repensar a minha existência repleta de artimanhas e trapaças. Eu não sou bom com as palavras… Se deseja que eu me passe por você de um modo convincente, terá que fechar os olhos e confiar a mim uma cópia de suas memórias.

Derlo permaneceu por alguns instantes com a atenção voltada para o rosto de Cibele, aguardando a sua decisão. Ela se aproximou antes de perguntar:

– O que devo fazer?

Ele respondeu:

– Apenas tranquilize-se e feche os olhos para que eu possa acessar as informações contidas em sua mente.

Cibele fechou os olhos e sentiu o contato delicado das mãos de Derlo em sua fronte e no topo de sua cabeça. Minutos depois, ele disse:

– Pode abrir os olhos. Você está bem?

Cibele respondeu:

– Sim. Eu senti apenas um leve torpor. Precisamos nos apressar. Receio que Florêncio suspeite da minha intenção de enganá-lo e resolva punir-me.

Olhando nos olhos de Cibele, Derlo afirmou:

– A sua mente só é confusa quando aparecem dois nomes que eu não preciso lhe dizer quais são. Se eu pudesse investigar o seu coração, que nome se sobressairia?

Cibele ameaçou dizer o nome de Eliel; mas hesitou e calou-se.

Derlo sorriu antes de exclamar:

– Era o que eu imaginava!

FIM DO 11º CAPÍTULO DA PARTE 2 (FLORÊNCIO) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.
Sisi Marques
26/10/2013

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO DA PARTE 2 (FLORÊNCIO) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.

Grata,
Sisi Marques

Que os seus sonhos se realizem!

Sobre Sisi Marques

Sou apaixonada pelos personagens e pelas histórias que povoam a minha imaginação. Amo escrever, porque é através da escrita que consigo registrar os momentos maravilhosos que essas realidades mágicas me proporcionam.
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