DE VOLTA À DIMENSÃO DAS BRUXAS (Capítulo XLI)

Cerca de meia hora depois, Tadeu apareceu no quarto que Cibele ocupava na casa de Florêncio. Ela não o viu chegar porque estava deitada de bruços. Ele disse suavemente para não assustá-la:

– Não chore… Tudo ficará bem.

Cibele, sobressaltada, levantou-se rapidamente e, enquanto afastava as lágrimas com as mãos, caminhou em direção à porta. Exclamou:

– Boa tentativa, Florêncio!… Contudo, desta vez, você não conseguirá me enganar. Saia do meu quarto agora mesmo.

Tadeu afirmou:

– Sou eu, Cibele. Se Florêncio quisesse enganá-la, assumiria a aparência de Eliel, e não a minha.

Cibele, acreditando mesmo tratar-se de Florêncio, exclamou:

– Você já se fez passar por Clara!… Por que não se passaria por Tadeu se sabe que eu também o amo e me sinto atraída por ele?…

Contemplando o olhar assustado de Cibele, Tadeu perguntou em tom carinhoso:

– Isso é mesmo verdade?!…

Cibele permitiu-se mergulhar nos olhos do homem que via à sua frente e, reencontrando neles o olhar apaixonado de Tadeu, correu para abraçá-lo. Após um momento de ternura e contemplação silenciosa, eles fecharam os olhos para que os seus lábios pudessem se tocar. Quando o beijo terminou, ainda abraçada a Tadeu, ela murmurou:

– Você não imagina o quanto eu ansiei por esse beijo. Eu pensei que nunca mais fosse vê-lo! Como está Eliel?… Ele conseguiu se recuperar daquele feitiço que Florêncio lançou contra ele?…

Tadeu respondeu:

– Sim. Ele tentou retornar, mas o feitiço ao redor da casa não permite que ele se aproxime. A propósito, preciso beijá-la novamente… Mas, desta vez, estarei sendo um simples mensageiro: Eliel pediu-me que a beijasse em seu lugar e dissesse que ele a ama. Você aceita ou recusa o beijo?

Cibele murmurou sorrindo:

– Eu aceito se você não se importar que eu o beije pensando em Eliel.

Tadeu, com o coração palpitando de amor por Cibele, exclamou:

– É essa a ideia!

Permitindo-se mergulhar novamente nos olhos de Tadeu, Cibele confidenciou:

– O seu olhar expressa tanto carinho e ternura que eu poderia jurar que estou diante dos olhos dele. Beije-me, Tadeu. Ajude-me a criar a ilusão de estar beijando Eliel.

Coberto por uma onda de amor eterno, Tadeu beijou Cibele como nunca se permitira beijá-la antes. E beijou-a novamente para acalmar a tristeza que se apoderou dela quando pensou que aquele seria o último beijo que ofertaria a Eliel.

Confortando-a em seu abraço, Tadeu disse:

– Pare de chorar, porque eu não vim aqui só para beijá-la e torturar ainda mais o seu coraçãozinho.

Cibele interrompeu-o para dizer:

– Os seus beijos são um doce lenitivo. O que me atormenta e me faz perder o gosto pela vida é a saudade que sinto de Eliel e a perspectiva de unir-me a Florêncio. Eu não deveria ter ingerido a água da Fonte da Juventude, porque viver ao lado dele eternamente será um verdadeiro suplício. Como posso conformar-me a uma vida de desamor, depois de ter mergulhado em seus olhos e nos olhos de Eliel?!… Eu prefiro morrer, Tadeu. Deve existir algum modo de anular o efeito da água da Fonte da Juventude. Se houver, certamente deverá estar escrito em um dos manuais de magia de Florêncio, e eu hei de encontrá-lo.

Ele a repreendeu ternamente:

– Eu vim lhe trazer esperança e a proíbo de pensar assim. Esta joia foi materializada na árvore de Eliel pela luz dourada, que se irradiou do seu espelho enquanto pensávamos em você.

Intrigada, Cibele estendeu a mão para segurar a corrente, e Tadeu, arrebatado por uma emoção indescritível, ajoelhou-se quando um vulto feminino surgiu ao lado dela. O quarto parecia imerso num oceano de luz dourada, e Tadeu sentiu-se impuro ao contemplar a beleza transcendente e singela daquelas duas fadas.

Deliciando-se com a expressão abobalhada no rosto de Tadeu, a mulher que apareceu ao lado de Cibele disse:

– Levante-se, Tadeu. Esta é a sua recompensa por ter sido sempre tão verdadeiro em seu amor por Cibele. Você a está contemplando em sua aparência real. Ela é metade bruxa e metade fada, e o seu lado fada agigantou-se em relação à outra metade.

Retirando delicadamente a joia da mão de Cibele, a fada disse:

– Deixe-me colocá-la para você.

Confusa, Cibele perguntou:

– Quem é você?…

Ela respondeu ternamente:

– Sou Ciana, sua mãe.

Envolvendo Cibele com o seu olhar terno e delicado, Ciana convidou-a a sentar-se na beira da cama e, após sentar-se ao seu lado, ela confidenciou:

– O seu pai e eu nos conhecemos acidentalmente e nos apaixonamos. Ele não fazia ideia de que um dos portais que descobrira com o uso da esfera e da chave lhe permitiria o acesso à dimensão das fadas. Inadvertidamente, estabelecemos uma ponte entre as duas dimensões e nos entregamos a um amor impossível. Quando você nasceu, eu a chamei de Cibele e lhe entreguei o espelho que havia sido um presente da minha mãe. O seu pai pediu-me que ficasse morando com ele em seu castelo, mas a minha natureza era livre demais para permitir que eu me acorrentasse àquele compromisso. E o mesmo acontecerá a você. Venha comigo para que você possa contemplar o oceano de maravilhas e possibilidades que a dimensão das fadas tem a lhe oferecer. A propósito, não foi a magia de Florêncio que retirou o unicórnio da nossa dimensão e o trouxe para a árvore de Eliel. Foi você quem desejou obtê-lo tão intensamente que o atraiu por um direito natural. Aquele mesmo unicórnio poderá ser seu, e a realização do seu desejo de ser conduzida em seu voo a terras paradisíacas é uma das delícias que a aguardam.

Cibele afirmou:

– O meu único desejo é poder voltar para Eliel. Ajude-me a me livrar da obsessão de Florêncio, e eu lhe serei eternamente grata.

Após beijar a testa de Cibele, sua mãe disse:

– Despeça-se de Tadeu e deixe-o ir. Amanhã, durante a primeira refeição do dia, com o coração transbordando de amor por Eliel, ostente a joia que lhe ofertei.

Ciana abraçou Cibele e desapareceu tão suavemente quanto chegara.

Tadeu, contemplando o leve brilho dourado ao redor de Cibele, disse:

– Eu nunca mais me atreverei a tocá-la.

Cibele exclamou:

– Não seja bobo! Deseje-me sorte através de um último beijo. E diga a Eliel que eu logo estarei na nossa árvore.

Tadeu sorriu e beijou Cibele.

Após beijá-la, com o semblante mesclado de contentamento e preocupação, ele perguntou:

– Se eu for embora utilizando a esfera e a chave, como você poderá retornar?…

Ela disse:

– Amanhã bem cedo, espere-me na floresta. Diga a Eliel que eu também o amo e estou morrendo de saudade. Agora vá.

Tadeu, embora soubesse que deveria partir imediatamente, não conseguia desprender o olhar do rosto de Cibele. Amava-a, amava-a de todo o coração e compreendeu que aquela seria mesmo a última vez que se permitiria beijá-la.

Cibele, parecendo ler os seus pensamentos, envolveu-o com sua meiguice e aceitou com o coração aberto o último beijo de amor de Tadeu.

Sisi Marques
22/09/2014

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA O ÚLTIMO CAPÍTULO DO SEGUNDO LIVRO DE “REALIDADE MÁGICA”.

Grata,
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Sobre Sisi Marques

Sou apaixonada pelos personagens e pelas histórias que povoam a minha imaginação. Amo escrever, porque é através da escrita que consigo registrar os momentos maravilhosos que essas realidades mágicas me proporcionam.
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