DE VOLTA À DIMENSÃO DAS BRUXAS (Capítulo XXVII)

Na manhã seguinte, enquanto Cibele fazia a primeira refeição do dia, aproveitou-se da ausência de sua mãe para perguntar:

– Onde está Eliel?… Você conversou com ele depois que Florêncio se foi?

Livre do disfarce que Ermínio lhe providenciara, Tadeu endereçou um olhar significativo a Cibele antes de responder:

– Não. Ontem à noite, ele não parecia muito aberto ao diálogo. Ele deve estar na floresta recarregando suas energias. A sua mãe já me entregou uma lista enorme de afazeres, e eu preciso começar a trabalhar. Tenha um bom dia, Cibele.

Cibele sorriu tristemente quando ele se afastou. Desejava poder segui-lo, mas receava ser descoberta por Florêncio ou por sua mãe. Desmanchara o compromisso com Eliel para viver ao lado de Tadeu; mas, naquele momento, esse desejo parecia completamente inatingível.

Minutos depois, movida por um impulso irresistível, Cibele deixou o castelo e foi até o poço porque imaginou que era lá que Tadeu deveria estar. Ela não se enganara. Ele estava retirando um balde de água quando ela perguntou:

– Precisa de ajuda?…

Ele respondeu:

– Não. Mas necessito da sua companhia.

Cibele perguntou:

– Você acredita que Florêncio possa nos ouvir a esta distância do castelo?

Ele disse:

– Espero que não. Perdoe-me por ter mentido para você na cozinha. Eliel e eu conversamos bastante, sentados à margem do rio. Ele não se encontra mais nesta dimensão… Ele foi levar o bracelete para Afrânio e verificar sobre a possibilidade de usarmos a ampulheta. Ermínio também está empenhado em nos ajudar. Se eu tivesse a certeza de que Florêncio não está nos observando, eu não hesitaria em beijá-la.

Ele se surpreendeu ao ouvi-la murmurar:

– Valeria a pena correr o risco!… É impossível que ele tenha câmeras em todos os lugares.

Enquanto Cibele falava, os seus olhos tocavam os olhos de Tadeu, ofertando-lhes um néctar inebriante. Ele se aproximou lentamente para beijá-la. Entretanto, no momento em que Tadeu a beijava, o coração de Cibele começou a destilar gotas de incerteza e nostalgia. Com receio de magoá-lo, ela não o afastou e retribuiu o beijo. Quando o beijo terminou, eles se surpreenderam ao ver Eliel a certa distância com o olhar colado ao chão.

Tadeu aproximou-se dele para perguntar:

– O que houve?…

Eliel respondeu:

– Você se esqueceu de me entregar a esfera. Sem ela, eu não conseguirei localizar o portal.

Tadeu comentou:

– Tive que deixá-la para trás. Eu já estava na floresta, e faltava apenas girar a chave no centro da abertura. De repente, eu pensei ter ouvido alguém se aproximando… Eu me apavorei e acabei derrubando a esfera na passagem, no momento em que ela se fechava. Pouco depois, a mãe de Cibele me localizou, e eu a segui até o castelo sem impor resistência.

Eliel perguntou:

– Como a mãe de Cibele tomou conhecimento tão rapidamente da sua chegada?

Tadeu disse:

– Eu não sei… Pode ter sido coincidência. Ou talvez Florêncio a tenha avisado.

Eliel exclamou:

– Isso é impossível!… Ele não pode ter olhos e ouvidos por toda a parte!… Eu preciso encontrar um meio de sair daqui… Será muito difícil permanecer ao lado de vocês dois!…

Cibele, aproximando-se de mansinho, perguntou:

– O que estão cochichando?… Desde quando tivemos segredos?…

Foi Eliel quem disse:

– Você deveria saber que não é por sua causa que estamos falando baixo. Eu tentei sair, mas não consegui localizar o portal.

Receando que Eliel se afastasse, Cibele comentou:

– Você está magoado, e é apenas por esse motivo que está desesperado para partir. Eu posso ajudá-lo a localizar o portal. Se reunirmos a nossa magia, talvez consigamos encontrá-lo.

Fugindo ao olhar insistente de Cibele, Eliel exclamou:

– Não seria uma boa ideia! Eu voltarei ao castelo.

Cibele, ousando aproximar-se, perguntou:

– Por que você age assim?… Eu não pretendia feri-lo. Eu pensei que pudéssemos ser amigos.

Eliel, pousando o olhar no rosto de Cibele por um breve instante, confidenciou:

– É exatamente por ser seu amigo que eu preciso me afastar. O meu maior desejo é que você seja feliz. Só não me peça para compartilhar dessa alegria porque o meu coração está de luto.

Eliel afastou-se, e Cibele sentiu a desilusão abraçá-la. Contemplando o olhar apaixonado de Tadeu, ela confidenciou:

– Eu sinto como se estivesse afundando em um vazio imenso! O meu coração não pode ser assim tão inconstante!… Ele precisa parar de oscilar entre o seu amor e o amor de Eliel. Olhe para mim, Tadeu, e permita que o seu olhar reacenda a chama que aqueceu o meu coração naquela noite em que o nosso amor triunfou.

Tadeu empenhou-se ao máximo para que o seu olhar correspondesse à expectativa do olhar apaixonado de Cibele. Decepcionou-se, porém, quando ela desviou o olhar e perguntou receosa:

– Você acredita que eu esteja me deixando levar pelas sugestões de Florêncio?… Só pode ser isso!… Não existe outra explicação!… O pior é que eu estou fazendo você perder tempo em vez de ajudá-lo a realizar o trabalho.

Tadeu sugeriu:

– Conte-me o que a está preocupando. Como eu poderia virar-lhe as costas e me concentrar nas tarefas absurdas que sua mãe impõe, quando você está naufragando em um mar de sentimentos contraditórios?!… Eu tive uma ideia: lembra-se daquela árvore que despertou a preferência de Eliel na época em que ele ainda estava comprometido com Anabel?… Vá para lá e me aguarde. Em breve, irei alcançá-la.

Cibele murmurou:

– Por que não larga tudo e vem comigo?!… Eu não quero ficar sozinha. Deixe-me ver essa lista para que possamos terminar logo com essas exigências.

Num gesto de impaciência, Cibele puxou a lista de obrigações da mão de Tadeu e, com um sorriso mesclado de doçura e maldade, ela rasgou a lista em vários pedaços e soltou-os para que fossem carregados pelo vento. Depois, segurando a mão de Tadeu, perguntou:

– Podemos ir?!… Agora a sua única tarefa é fazer-me companhia.

Tadeu, sentindo-se inebriar de paixão, conduziu Cibele à floresta. Quando eles chegaram em frente à árvore que Tadeu mencionara, sentaram-se à sua sombra. Cibele perguntou:

– Você se lembra quando eu me zanguei porque você e Anabel, em vez de estarem se empenhando em terminar logo as tarefas, estavam aqui sentados, conversando com Eliel?

Tadeu acrescentou:

– Comendo chocolate e tomando sorvete. Anabel estava preocupada com sua aparência, e Eliel conseguiu melhorar tanto a aparência dela quanto a minha, com sua magia. Depois Anabel se foi, e eu presenciei o beijo que vocês trocaram.

Cibele comentou:

– Você sempre foi meu amigo e esteve sempre presente. Agora que a nossa amizade se estendeu além dos limites que estabelecíamos, eu me encorajei a terminar o meu relacionamento com Eliel, para que o nosso amor pudesse ter uma chance de sobreviver àquela noite. Quando Eliel chegou aqui ontem, eu olhei nos olhos dele e não reencontrei a doçura de outrora. Nós nos beijamos, e o sabor daquele beijo já não era o mesmo. Ou o amor de Eliel perdeu o poder de me atrair, ou foi o meu amor por você que se intensificou e começou a vibrar nas cordas do meu coração.

Tadeu, segurando a mão de Cibele, aventurou-se a perguntar:

– Isso quer dizer que você aceita a possibilidade de ser feliz ao meu lado?…

Tadeu sentiu o coração despedaçar quando ela confidenciou:

– Naquela noite, sim. Mas hoje eu não saberia o que responder… No início, eu pensei que esta dimensão influenciasse os meus sentimentos em relação a vocês dois. Mas começo a acreditar que Florêncio esteja tentando me confundir com suas sugestões insidiosas para colocar Eliel contra você, e vice-versa. Além disso, se eu estiver presa nessa teia de sentimentos conflitantes, eu não poderei buscar refúgio na fortaleza do meu amor. Florêncio está fazendo mais do que dividir o meu coração ao meio… Ele está matando as duas metades e revivendo-as alternadamente. Antes de virmos para cá, eu amava Eliel. Quando cheguei aqui, o meu amor por você veio à tona de modo irresistível. E hoje, embora Eliel procurasse camuflar o seu olhar, ele conseguiu aprisionar o meu coração. Quando Eliel se afastou há pouco, ele levou o meu coração consigo; e é por esse motivo que eu me encontro de mãos vazias. Embora você seja lindo, meigo e atencioso, e o seu amor seja pleno e cativante; você não conseguiria reencontrar nos meus olhos a profusão de amor daquela noite porque, neste momento, o meu coração está ausente. A resposta é não. Eu jamais poderia ser feliz ao seu lado, porque amo Eliel perdidamente. Eu sinto muito, meu amigo.

Cibele delicadamente acariciou o rosto de Tadeu para afastar as lágrimas que teimavam em cair. Aproveitando-se da leveza daquele silêncio, ela acrescentou, ternamente, enquanto se permitia brincar com o cabelo de Tadeu, enrolando-o e desenrolando-o por entre os dedos:

– Você não está sozinho em sua dor e em seu sofrimento; tanto Eliel quanto eu estamos sofrendo irremediavelmente. O ciúme de Eliel é implacável: ele jamais conseguirá me perdoar. Apesar disso, eu seria uma grande mentirosa se dissesse que me arrependo por ter cedido ao encanto daquela atração mágica. Aquele momento viverá para sempre na memória de nossos corações.

Para animá-lo, ela exclamou exalando ternura:

– Não é justo! Vai continuar aí calado, me deixando falar sozinha?!…

O coração de Tadeu, embora corroído pela desesperança, ainda pulsava ensandecido por aquele amor solitário. Ele precisava conquistar um último beijo antes de soltá-la para sempre. As palavras eram desnecessárias, porque o sentimento entre eles sempre falou mais alto. Cibele, ao sentir o contato quente e macio das mãos de Tadeu em seu rosto, pressentiu o beijo e aceitou-o como uma demonstração de afeto. Quando o beijo terminou, ele disse:

– Eu tenho algo muito importante para lhe revelar. Você se lembra de quando Crisélia assumiu a aparência de Anabel para ir trabalhar na biblioteca no lugar dela? Não houve nenhuma modificação real na aparência de Crisélia, embora ela conseguisse criar a ilusão de ser Anabel para aqueles que não tinham conhecimento do seu disfarce. O mesmo aconteceu com Eliel. Você e eu nunca ultrapassamos limite algum, porque foi ele quem esteve ao seu lado o tempo todo. Se ele tivesse lhe contado que assumiria a minha aparência, você veria a ele e não a mim, e o disfarce não se sustentaria. Para que ele conseguisse enganar a sua mãe e Florêncio, você precisava acreditar que fui eu quem a conduziu para cá e não ele. Florêncio não teve nada a ver com a confusão em sua mente e em seu coração.

Embora a fisionomia de Cibele expressasse toda a mágoa que sentia por ter sido enganada, Tadeu aproveitou-se da comoção de seu silêncio para acrescentar:

– Ontem à noite, quando você contou a Eliel o que pensou ter acontecido entre nós, era comigo que você estava falando. A pedido de Clara, a magia de Ermínio concedeu-me a aparência de Eliel por algumas horas para que eu não comprometesse o disfarce dele, e tivéssemos tempo de reassumir as nossas identidades. A sua confusão aparente só realçou a certeza de que você ama Eliel. Não é só você que se sente traída. Eu também sofri quando você buscou inutilmente nos meus olhos a emoção que só consegue encontrar nos olhos dele. Nós três fomos vítimas das circunstâncias porque, embora Eliel não tivesse o direito de se aproximar de você se fazendo passar mim, ele a ama e só desejou apaziguar o seu coração depois que Florêncio a beijou.

Cibele e Tadeu já estavam em pé ao lado da árvore quando ela exclamou:

– Eu odeio você e odeio Eliel duplamente! Para vingar-me dessa traição, aceitarei casar-me com Florêncio o mais breve possível. Você e Eliel têm os meios para partir, e espero que façam isso agora mesmo para que eu nunca mais torne a vê-los. Eu sei que você mentiu para ele a respeito da esfera. Ela não caiu na passagem enquanto você fechava o portal porque ontem, quando a minha mãe mandou que eu descesse ao porão para lhe dar as boas vindas, eu presenciei o momento em que você escondeu a chave e a esfera na fronha do seu travesseiro. Você não conseguiria convencer Eliel a ficar e, por esse motivo, entregou-lhe apenas a chave porque você sabia que seria impossível ele encontrar a saída da floresta sem a esfera.

Para enternecê-la, Tadeu perguntou:

– E quanto ao bebê… Como acha que ele será tratado depois que nascer?…

Cibele afirmou:

– Eu convencerei Florêncio a aceitá-lo, porque condicionarei a intensidade do meu amor à afeição e gentileza que ele demonstrar em relação ao meu filho.

FIM DO 27º CAPÍTULO DA PARTE 4 (DE VOLTA À DIMENSÃO DAS BRUXAS) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.

Sisi Marques
28/03/2014

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO DA PARTE 4 (DE VOLTA À DIMENSÃO DAS BRUXAS) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 2”.

Grata,

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Que os seus sonhos se realizem!

Sobre Sisi Marques

Sou apaixonada pelos personagens e pelas histórias que povoam a minha imaginação. Amo escrever, porque é através da escrita que consigo registrar os momentos maravilhosos que essas realidades mágicas me proporcionam.
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